Vendas no varejo sobem 0,7% em julho

Em julho de 2023, o volume de vendas do comércio varejista teve alta de 0,7% frente a junho, na série com ajuste sazonal. A média móvel trimestral foi de 0,1%. Frente a julho de 2022, houve alta de 2,4%, segunda alta consecutiva nessa comparação. O acumulado do ano até julho (ante o mesmo período do ano anterior) foi de 1,5%. O acumulado nos últimos doze meses foi a 1,6%.

No comércio varejista ampliado, que inclui veículos, motos, partes e peças e material de construção, o volume de vendas de julho recuou 0,3% frente a junho, na série com ajuste sazonal. O índice de média móvel trimestral para o varejo ampliado foi de 0,2%.

Frente a julho de 2022, o varejo ampliado foi cresceu 6,6%. O acumulado no ano foi de 4,3%, e o acumulado em 12 meses foi a 2,3%.

Em julho, o comércio varejista do país está 2,2% abaixo do nível recorde da série, que aconteceu em outubro de 2020. O volume de vendas das atividades do comércio varejista mostrou equilíbrio entre taxas negativas e positivas, na passagem de junho para julho de 2023, na série com ajuste sazonal.

Equipamentos e material para escritório informática e comunicação (11,7%), Outros artigos de uso pessoal e doméstico (8,4%), Hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (0,3%) e Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria (0,1%) tiveram resultados no campo positivo. Já em Tecidos, vestuário e calçados (-2,7%), Livros, jornais, revistas e papelaria (-2,6%), Móveis e eletrodomésticos (-0,9%) e Combustíveis e lubrificantes (-0,1%) houve variações negativas.

No comércio varejista ampliado, Veículos e motos, partes e peças tiveram queda de 6,2% e Material de construção teve variação de 0,3%.

Frente a julho de 2022, alta em cinco das oito atividades

Em relação a julho de 2022, houve altas em cinco das oito atividades: Equipamentos e material para escritório informática e comunicação (6,9%), Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria (6,5%), Móveis e eletrodomésticos (3,4%), Hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (3,0%) e Tecidos, vestuário e calçados (1,6%).

Os três setores que apresentaram recuo foram Livros, jornais, revistas e papelaria (-7,3%), Outros artigos de uso pessoal e doméstico (-4,9%) e Combustíveis e lubrificantes (-2,8%).

No comércio varejista ampliado, tanto o setor de Veículos e motos, partes e peças, quanto de Atacado de produtos alimentícios, bebidas e fumo registraram expansão: 9,8% e 19,6% respectivamente. Já Material de construção variou -0,3% nesta comparação.

A atividade de Equipamentos e material para escritório, informática e comunicação apresentou alta de 6,9% frente a julho de 2022, primeiro resultado positivo após três meses (-5,8% em abril, -4,9% em maio e -8,8% em junho). No acumulado do ano, o resultado até julho de 2023 foi de 0,1%, invertendo a perda acumulada até junho (-1,1%). O indicador do acumulado dos últimos doze meses registra ganhos pelo décimo mês consecutivo (1,4% até julho de 2023).

A atividade de Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria cresceu 6,5% frente a julho de 2022, alcançando o quinto mês consecutivo a registrar alta (fevereiro de 2023 apresentou -0,5% em relação a fevereiro de 2022). O setor apresentou a segunda maior alta no indicador interanual. O acumulado no ano, até julho, foi 3,0% e em doze meses, 3,8%.

O grupo Móveis e eletrodomésticos registrou alta de 3,4% no volume de vendas frente a julho de 2022, terceiro resultado consecutivo no campo positivo (-3,7% em abril, 0,4% em maio e 2,7% em junho). Em relação ao acumulado no ano até julho, ao passar de 1,1% até junho para 1,4% no mês de referência, a atividade mostra intensificação do ritmo de ganhos. O acumulado nos últimos doze meses foi a -0,3%, a menor perda acumulada da série de variações no campo negativo iniciada em outubro de 2021.

O grupamento de Hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo cresceu 3,0% nas vendas frente a julho de 2022, contra aumento de 3,2% em junho de 2023 frente a junho de 2022. Em relação ao acumulado no ano, na comparação com o mesmo período do ano anterior, os últimos cinco meses indicam estabilidade no ritmo de crescimento: 2,6% até março, 2,8% até abril, 2,5% até maio, 2,6% até junho e 2,7% até julho. O indicador acumulado dos últimos 12 meses registra ganho de 2,6% até julho.

O setor de Tecidos, vestuário e calçados, na comparação interanual, apresentou alta de 1,6% no volume de vendas frente a julho de 2022, primeiro resultado positivo desde janeiro de 2023 (2,4%). No ano, o setor acumulou -9,6% até maio, -9,0% até junho e -7,5% até julho. O acumulado nos últimos dozes meses (-9,6%) está negativo por oito meses consecutivos.

O setor de Livros, jornais, revistas e papelaria apresentou queda de 7,3% no volume de vendas frente a julho de 2022, sexto consecutivo no ano de 2023 dentre os sete apurados até julho (janeiro foi o único a registrar aumento: 18,3%). No ano o setor acumula perdas até julho (-0,7%) em relação ao mesmo período do ano anterior, primeiro ponto no campo negativo após 18 meses acumulando ganhos. Em doze meses, o crescimento é de 3,7%, menor patamar, para este indicador, desde junho de 2022, quando registrou 4,0%.

A atividade de Outros artigos de uso pessoal e doméstico, que engloba lojas de departamentos, óticas, joalherias, artigos esportivos, brinquedos, etc., apresentou queda de 4,9% nas vendas frente a julho de 2022, décima quinta consecutiva na comparação interanual (último ponto a registrar alta foi abril de 2022). Até julho o setor acumula queda de 12,5%, na comparação com o mesmo período de 2022, mesmo ritmo de perda desde abril (-12,4% em abril, -13,5% em maio e -13,7% em junho). Em termos de resultado acumulado nos últimos doze meses, ao passar de -13,3% até junho para -11,1% em julho, o setor mostrou também mostra perdas.

O grupamento de Combustíveis e lubrificantes apresentou queda de 2,8% nas vendas frente a julho de 2022, primeiro mês em queda após 17 meses de resultados positivos. Em relação ao acumulado no ano até julho, ao passar de 14,3% até junho para 11,3% no mês de referência, a atividade mostra queda de ritmo de vendas. O acumulado nos últimos doze meses foi de 21,0% até junho para de 18,8% em julho, mostra diminuição de intensidade de crescimento.

Incluindo as atividades com varejo ampliado, o volume de vendas de Veículos e motos, partes e peças apresentou alta de 9,8% nas vendas frente a julho de 2022, terceiro mês positivo consecutivo (1,5% em maio e 17,8% em junho de 2023). Com isso, o acumulado do ano foi de 6,0%, sétimo valor positivo para este indicador e o maior patamar desde dezembro de 2021 (14,9%). Nos últimos dozes meses, o acumulado foi a 2,2%, segunda alta consecutiva.

O grupo de Material de construção apresentou variação de -0,3% nas vendas frente a julho de 2022, sexta consecutiva para este indicador (-5,7% em fevereiro, -5,0% em março, -7,7% em abril, -2,0% em maio e -2,4% em junho). Em relação ao acumulado no ano até julho, ao passar de -3,6% até junho para -3,1% no mês de referência, a atividade manteve ritmo de queda, mesma trajetória do acumulado de 12 meses: -7,0% até junho e -5,8% até julho.

No caso do Atacado especializado em produtos alimentícios, bebidas e fumo, houve alta de 19,9% ante julho de 2022. No ano, o acumulado foi a 9,8%.

Vendas crescem em 14 Unidades da Federação em relação a junho
Em julho, houve resultados positivos em 14 das 27 UFs, com destaque para: Espírito Santo (3,3%), Paraíba (2,4%) e Rio Grande do Sul (2,1%). Pressionando negativamente, figuram 11 UFs, com destaque para Acre (-2,1%), Alagoas (-1,6%) e Mato Grosso do Sul (-1,3%). Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte apresentaram estabilidade (0,0%).

No comércio varejista ampliado, houve quedas em 17 das 27 UF, com destaque para: Pará (-6,7%), Tocantins (-4,8%) e Rondônia (-4,5%). No campo positivo figuram 10 UFs, com destaque para Paraíba (4,9%), Espírito Santo (4,0%) e Rio Grande do Sul (3,9%).

Na comparação interanual, vendas sobem em 21 das 27 Unidades da Federação
Frente a julho de 2022, as vendas no comércio varejista tiveram alta em 21 das 27 UFs, com destaque para: Tocantins (14,6%), Ceará (12,3%) e Maranhão (11,0%). As quedas mais intensas foram em Rondônia (-1,6%), Mato Grosso do Sul (-1,1%) e Mato Grosso (-0,6%).

Já no comércio varejista ampliado, houve crescimento em 24 UFs, com destaque para: Bahia (28,6%), Maranhão (26,5%) e Ceará (24,5%). Apenas Mato Grosso do Sul (-12,2%), Roraima (-2,2%) e Goiás (-1,8%) obtiveram resultados negativos.

Veja demonstrativos em https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/37907-vendas-no-varejo-sobem-0-7-em-julho

PicPay varia “prateleira” do marketplace, que tem 115 vendas por segundo

No 1º semestre, o PicPay Shop superou R$ 1 bilhão em GMV, o que representa um crescimento de 36% na comparação anual.

A oferta de soluções não financeiras por fintechs, bancos digitais e até “bancões” é uma realidade. No PicPay, super app com mais de 33 milhões de usuários ativos, a estratégia tem ganhado corpo desde o lançamento da então PicPay Store, há quatro anos. Com aproximadamente 115 vendas por segundo, o marketplace vem incrementando o leque de produtos e serviços. Agora quer crescer em categorias de maior recorrência, como mercado, farmácia e pet.

Rebatizado recentemente, o PicPay Shop superou, no primeiro semestre de 2023, R$ 1 bilhão em volume total de vendas (GMV, na sigla em inglês), o que representa um crescimento de 36% na comparação anual, informa o PicPay.. A cifra é significativa se olharmos para o retrovisor — em seu primeiro ano de atuação, em 2021, a antiga “Store” totalizou um GMV de pouco mais de R$ 1 bilhão, volume que saltou para R$ 1,6 bilhão em 2022.

Com mais de 330 lojas parceiras, o negócio registra mais de 2,5 milhões de usuários únicos transacionando mensalmente e adiciona mais 200 mil clientes todos os meses. Segundo Rita Cunha de Lemos, executiva que acaba de assumir a liderança dessa unidade, o objetivo do marketplace é ser um “hub de consumo” que contribui para o engajamento dos clientes. “Isso fortalece a estratégia do PicPay como um todo em ser a conta principal desse cliente”, diz ela, ao Finsiders.

É a primeira entrevista desde que Rita assumiu a posição — ela chegou à fintech em abril. No mercado de e-commerce há cerca de 17 anos, a executiva entende do riscado. Passou os últimos cinco na Mosaico, dona do Buscapé e do Zoom, onde foi diretora de ‘growth’. No PicPay, sua missão é expandir ainda mais a estratégia de marketplace da fintech.

Diversificação

Nos últimos trimestres, o negócio vem agregando novas categorias de produtos e serviços, assim como tem ampliado a relação de lojistas disponíveis. No PicPay Shop, é possível comprar desde gift cards de games até smartphones. A empresa tem parcerias com grandes varejistas como Amazon, Magalu, Casas Bahia, Carrefour, entre outros.

Para Rita, a decisão de entrar em novos segmentos e ampliar categorias é uma combinação entre entender o que as pessoas querem consumir e aquilo que faz sentido do ponto de vista de ‘unit economics’. Uma das apostas do PicPay Shop é viagens. “Temos uma atuação forte já no segmento e queremos ampliar e solidificar essa estratégia”, afirma a executiva.

A empresa também quer ganhar mais espaço em produtos de maior recorrência. “Hoje temos uma atuação forte em gift cards para games e aplicativos de transporte, como Uber e 99. Agora vamos partir para segmentos do comércio eletrônico que geram bastante recorrência de compra, como mercado, farmácia e pet”, conta Rita. Outra área de foco é telecom. “Temos já um relacionamento forte com as operadoras, mas podemos diversificar os produtos.”

“Personalização do cashback”

No PicPay Shop, cashbacks e cupons de desconto são os principais chamarizes. Desde a criação do marketplace, por exemplo, já foram distribuídos mais de R$ 100 milhões em cashback. Para Rita, esse recurso é uma “alavanca poderosa” para o engajamento da base de clientes, mas tem desafio de execução. Isso significa criar uma proposta de valor que faça sentido para o consumidor, o que começa desde a negociação com os parceiros e vai até a comunicação com os usuários na ponta.

Segundo ela, a companhia investe cada vez mais na “personalização” do cashback, com ofertas mais direcionadas para a necessidade do cliente. “Também apostamos em uma conexão cada vez maior com o ecossistema financeiro da companhia, que é muito amplo”, diz a executiva. “Por exemplo, podemos fazer uma campanha de cashback no Magalu, incentivando essa compra com o PicPay Card.”

Entre as novidades mais recentes, o PicPay também lançou uma extensão para Google Chrome que permite comprar no marketplace também pelo navegador. “É mais uma maneira de agregar valor para o nosso usuário.”

Tendência

Muito se fala sobre a movimentação de fintechs, neobanks e mesmo instituições tradicionais, como Itaú, Bradesco e Banco do Brasil (BB), para avançar na oferta de produtos e serviços não financeiros. O caminho é cada vez mais comum como parte do esforço para ampliar as linhas de receita, engajar os clientes e buscar a tão sonhada principalidade.

A rota inversa também é perseguida pelos principais varejistas e marketplaces no Brasil. O exemplo mais bem-sucedido é do Mercado Livre, cuja operação de serviços financeiros, o Mercado Pago, se tornou um dos players mais relevantes do setor e quer ser um dos três maiores bancos digitais no país até 2025.

A oportunidade no mercado local tem atraído, ainda, gigantes como a norte-americana Amazon, que lançou oficialmente na semana passada seu cartão de crédito para clientes brasileiros. O produto, fruto de um acordo com Bradesco e Mastercard, aposta em benefícios arrojados, como cashback de 5% para os consumidores que fazem parte do Amazon Prime.

https://www.terra.com.br/economia/dinheiro-em-dia/meu-negocio/picpay-varia-prateleira-do-marketplace-que-tem-115-vendas-por-segundo,c20dca83c022ba56048abae1bd544244vonl4zmc.html?utm_source=clipboard

O tsunami no varejo brasileiro

Em meio à polêmica sobre a isenção do imposto de importação para compras internacionais de até US$ 50 e o programa Remessa Conforme, varejistas asiáticas como Shein, Shopee e AliExpress têm aumentado consideravelmente seus investimentos no Brasil – que já está entre os maiores mercados para as três empresas.

Para piorar o cenário de competição para as varejistas brasileiras, outras empresas como a Temu (a pronúncia é “Timo”) devem desembarcar no país em breve, e cada vez mais redes sociais chinesas, como o TikTok e o Kwai, vão apostar na venda de produtos em suas plataformas através do live-commerce (em que uma pessoa interage com internautas e vende os produtos em uma transmissão ao vivo, dentro da plataforma).

Shein, Shopee e AliExpress entraram no Brasil há poucos anos, mas já conquistaram uma fatia considerável do mercado. A Shopee tem atualmente a maior operação no país, com 7 mil funcionários, vários andares alugados na Faria Lima, em lajes corporativas de luxo, e mais de 120 mil m² de galpões logísticos classe A. Parte do grupo Sea Limited, a empresa diz que 85% das suas vendas já são de vendedores locais, não de produtos importados, e que já tem mais de 3 milhões de sellers em sua plataforma — o marketplace (3P) do Magazine Luiza, por exemplo, tem 281 mil.

Shein (a pronúncia é “She-in”, ou “ela dentro”) e AliExpress têm operações locais menores e não revelam quantos vendedores têm nas suas plataformas, mas também têm escritórios na Faria Lima e não ficam para trás nos investimentos (tanto em gastos com infraestrutura como também em tecnologia). Parte do grupo Alibaba, a AliExpress tem a menor operação logística das três no Brasil, mas traz oito voos semanais de mercadorias da China.

A Shein, que também usa o frete aéreo para suas importações, há poucas semanas fez uma locação que surpreendeu o mercado: alugou da GLP um galpão logístico em construção  de 135 mil m², em Guarulhos (ela já ocupa 80 mil m² em dois galpões no empreendimento, que fica próximo ao aeroporto internacional de Cumbica e tem locatários como Amazon e Magazine Luiza).

“O tamanho desta locação realmente surpreendeu. Tivemos que validar os dados, porque foi bastante representativa”, afirma Leandro Braga, head de inteligência de mercado da Colliers International do Brasil, sobre o movimento da Shein. Foi a maior transação do ano até agora, segundo a consultoria (a segunda maior foi para o Mercado Livre, que alugou 107 mil m² no Prologis Castelo 46), Além dos galpões em Garulhos, a chinesa também ocupa outros dois espaços menores, um deles em Embu das Artes.

Para efeito de comparação com as varejistas consolidadas no país, a Colliers diz que os maiores inquilinos em centros de distribuição de alto padrão construtivo são Mercado Livre (com cerca de 1,2 milhão de m² de área locada), Amazon (427 mil m²) e Magalu.  A Magalu diz que tem 868 mil m²  de área alugada, dos quais 792 mil m²  são da marca e o restante está dividido entre Netshoes, Kabum e Época Cosméticos, e que 80% dos seus galpões são classe A. Amazon e Meli não confirmaram o tamanho de suas operações.

As varejistas asiáticas já alteraram o tabuleiro de disputa no país, afirma Tiago Berta, fundador do Fórum E-commerce Brasil (maior evento de comércio eletrônico do país, que reuniu mais de 21 mil congressistas em São Paulo na semana passada). “Aqui tem cinco empresas (grandes), e o mercado estava passando por uma consolidação”, afirma Berta sobre Mercado Livre, Amazon, Magalu, Via e Americanas. “Agora entraram as asiáticas e a concorrência aumentou. E virão mais empresas de lá.”

Estratégia das recém chegadas

O espaço não só físico ocupado pelas asiáticas, mas também nas palestras durante o fórum, incomodou empresas locais, que reclamaram com a organização. A AliExpress, uma das patrocinadoras do evento (junto com Amazon e Magalu), ocupou um dos maiores stands da feira, bem ao lado da varejista americana e do Mercado Livre.

Briza Bueno, diretora de business development e marketing da AliExpress, afirmou à reportagem que o intuito foi aproximar-se dos sellers. “Fizemos uma promoção de 100% de cashback nas comissões durante os três primeiros meses, para eles testarem a plataforma”.

Para atrair vendedores para o seu marketplace (3P), a empresa do grupo Alibaba cobra comissões bem menores que a concorrência (entre 5% e 8%, ante cerca de 20% na média). Esse percentual pode ser ainda maior, dependendo da quantidade de serviços contratados, como o fullfilment (armazenagem em galpões da própria varejista), a entrega mais rápida ao consumidor e os anúncios (que dão mais destaque ao produto na plataforma).

A estratégia da Shopee para crescer no Brasil também foi zerar a comissão paga pelos sellers. Em geral, as empresas chinesas apostam em subsidiar o frete e dar cupons para os clientes, para fidelizá-los. Essa estratégia é facilitada pela  robustez financeira dos grupos que as controlam (tanto o Alibaba quanto a Sea Limited são empresas listadas na Nyse, aparentemente com disposição de queimar caixa em mercados prioritários, como o Brasil).

Yan Di, ex-country manager da AliExpress no Brasil, destaca a importância do caixa nessa briga, por fatias de mercado, e dá como exemplo o cashburn que a Temu fez para entrar nos Estados Unidos, com tickets de US$ 30 para os novos usuários. “São R$ 150 de subsídio. Aqui no Brasil, são poucas as  compras acima deste valor.”

O executivo também já foi CEO do Baidu no Brasil, trabalhou por 13 anos na Huawei e hoje tem uma empresa de live commerce (que conta, entre os clientes, com empresas como a Shopee e o Kwai). Ele diz que Shein, Shopee e AliExpress conquistaram mercado rapidamente no Brasil porque têm acesso a fornecedores e produtos, apostam em preços baixos, subsídio, eficiência e tecnologia e também porque a concorrência aqui é menor do que na Ásia.

Ele afirma ainda que a América Latina é um mercado “super sensível a preço”, não só nas classes mais baixas, e dá como exemplo a concorrência na China. “Não é só os mais pobres que compram produtos mais baratos. O Pinduoduo, que é da Temu, cresceu porque o Alibaba queria vender só para a classe média. Isso é fatal, porque todos os consumidores querem o menor preço”.

Chinês residente há mais de 20 anos no Brasil (e casado com uma brasileira), Yan Di afirma que o varejo local conheceu apenas “a maré alta” com a chegada das empresas asiáticas, “mas ainda vai ver o tsunami”. “Temu, TikTok, Shein e Shopee vão remodelar o mercado brasileiro de e-commerce. Elas estão sacudindo o mundo inteiro.”

Quem é maior no Brasil?

A Shopee, que no ano passado teve um stand no Fórum E-commerce Brasil, neste ano participou como convidada na sala ApexBrasil. Ela assinou no evento uma parceria com a agência do governo federal e com os Correios para um programa piloto que vai ajudar brasileiros a exportar seus produtos para o sudeste asiático (a AliExpress também tem um memorando de entendimento com a Apex).

Já a Shein fez uma apresentação, em um dos principais palcos do fórum, sobre a expansão das suas operações no Brasil. Country manager da empresa no país, Felipe Fleister contou que estimula seus fornecedores a produzir poucas peças de um mesmo modelo (de 50 a 100 unidades) para testar sua aceitação antes de produzir em escala. Assim, podem oferecer “ preços menores”, porque há uma redução de 20% a 30% nas perdas. Se houver demanda para o produto, o fornecedor  aumenta rapidamente a produção. Se não houver, o descarte é menor.

O executivo afirmou também, em uma palestra bastante concorrida, que o Brasil já é um dos cinco principais mercados da empresa  e que o país foi o primeiro do mundo onde a Shein trabalha o marketplace (3P), com sellers locais, e o segundo a fazer testes com produtores locais nas vendas da própria empresa (1P), só depois da Turquia. “Temos um plano nacional para o Brasil, um plano de crescimento que vai acontecer.”

Fleister foi head de business development na Shopee até ser contratado, em maio de 2022, para liderar a operação da Shein no Brasil. Ele reafirmou, no evento, o plano da empresa de produzir no Brasil 85% dos produtos vendidos na plataforma até 2026 e citou a possibilidade de o país virar um polo de exportação para a varejista chinesa, principalmente para a América Latina. “Nem todos os países vizinhos têm a capacidade industrial do Brasil”.

Com o executivo à frente da operação, a Shein saiu de apenas 10 contratados há 1 ano e 2 meses para 240 atualmente, que ocupam um andar no edifício Vera Cruz II, na “nova Faria Lima”, além da área de logística. A AliExpress tem um espaço próprio dentro do escritório do WeWork na mesma região, a menos de 250 metros da concorrente, e terceiriza toda sua logística para a Cainiao, empresa que também faz parte do grupo Alibaba e cujo escritório fica no Regus Torre Z, na Chucri Zaidan.

Já a Shopee tem cerca de 7 mil funcionários e uma operação bastante relevante no país: ocupa mais de 120 mil m², em ao menos 11 galpões logísticos espalhados pelo Brasil, e seus funcionários dividem-se  por três andares no Birmann 32 (mais conhecido como “o prédio da baleia”), no “coração” da Faria Lima, e por mais sete pisos no Faria Lima Plaza, no largo da Batata, segundo a Colliers.

Procurada, a Shopee não atendeu ao pedido de entrevista da reportagem. Francisco Rios, COO (diretor operacional) da Sea Limited para a América Latina, procurado no Fórum E-commerce Brasil, tampouco quis se manifestar. Foi Rios quem assinou o acordo com a ApexBrasil e os Correios.

Brasileiras querem equidade no tratamento fiscal

O Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV), que representa os interesses das varejistas brasileiras, estima que as remessas internacionais de pequeno valor (de até US$ 50) somaram R$ 20,8 bilhões entre janeiro e maio deste ano e que a perda de arrecadação federal foi de R$ 12,5 bilhões no período. O estudo foi entregue ao Ministério da Fazenda há cerca de duas semanas.

Formada por 115 marcas do varejo de moda, a ABVTEX tem sido uma das associações mais vocais contra o que chamam de “concorrência desleal” das varejistas asiáticas. Lima diz que o problema não é a concorrência em si, mas a falta de igualdade de condições. “Não somos contra a chegada dessa concorrência, dessa chegada das plataformas internacionais. Só queremos que elas contribuam com o pagamento dos tributos da mesma forma que o varejo nacional”.

As varejistas brasileiras criticam a isenção empresas do pagamento do imposto de importação de 60% sobre compras internacionais de até US$ 50. “Se não for para aplicar a alíquota de 60% [para as importações], que o governo então isente de pagamento de imposto as vendas do varejo brasileiro até o equivalente a US$ 50. A gente quer isonomia, por isso está pressionando o governo. Queremos um tratamento igualitário”.

As varejistas com capital aberto na Bolsa, como C&A, Renner e Riachuelo, foram procuradas mas não se manifestam oficialmente sobre o tema – apenas pelas associações. “Assim como o varejo nacional é onerado pelos tributos, os sites internacionais têm de se adequar e pagar o mesmo imposto”, afirma o porta-voz da ABVTEX. “Entendemos que a concorrência é saudável, mas ela tem de ocorrer em termos de equidade”.

Shein e Shopee dominam e-commerce brasileiro? Estudo aponta que ainda ‘tem chão’ para chegar no 1º lugar

SheinShopee AliExpress ainda não dominam o e-commerce brasileiro, aponta pesquisa da Conversion que mapeou quais são os nomes do setor mais buscados pelos consumidores.

O Mercado Livre (MELI34) permanece como a plataforma mais buscada, posição que vem ocupando ao longo de todo o ano. Apenas em junho, o levantamento aponta que foram mais de 322 milhões de acessos.

Na segunda posição aparece a Amazon Brasil, com mais de 178 milhões de acesso, também mantendo a posição. O primeiro e-commerce asiático a surgir no ranking é a Shopee, na terceira colocação, com mais de 140 milhões de acessos.

Em relação a maio, a única variação no ranking foi entre Casas Bahia, que caiu da sétima para oitava posição, perdendo o lugar para o iFood.

No mês de junho, contrariando as expectativas, o tráfego do e-commerce retraiu timidamente em 2% na comparação a maio, quando registrou alta de 6%. Com isso, em números absolutos, foram 2,31 bilhões de acessos únicos, sendo este o quarto melhor desempenho do ano.

Veja o ranking dos 10 maiores do país

e-commerces
(Imagem: Conversion/Divulgação)

Setor de e-commerce

A pesquisa da Conversion apontou que setor de e-commerce teve um primeiro semestre com desempenho abaixo do último período do ano passado em questão de tráfego.

No período entre julho e dezembro de 2022, as plataformas tiveram uma média de 2,43 bilhões de acessos por mês, enquanto, de janeiro a junho de 2023, esse número foi de 2,32 bilhões, uma queda de 4,5%.

Diego Ivo, CEO da Conversion, avalia o número como positivo de certa forma, considerando que o segundo semestre guarda datas esperadas pelo varejo, como a Black Fridaye  o Natal.

“No ano passado, o melhor desempenho do e-commerce foi em novembro (2,69 bilhões de visitas), marcadamente porque muita gente espera o ano inteiro para comprar na Black Friday”, diz ele.

‘ https://www.moneytimes.com.br/shein-e-shopee-dominam-e-commerce-brasileiro-estudo-aponta-que-ainda-tem-chao-para-chegar-no-1o-lugar/

A chinesa Temu, pesadelo da Shein, virá ao Brasil

A Temu, um e-commerce do grupo chinês Pinduoduo que vale mais de US$ 100 bilhões na Nasdaq, já vende mais que a Shein nos EUA. E vai atuar no Brasil até o fim deste ano.

Nos últimos anos, a chinesa Shein se transformou na principal dor de cabeça dos varejistas brasileiros com a venda de peças de roupas baratas e com práticas comerciais consideradas pouco usuais.

Agora, o maior pesadelo da Shein no mundo está prestes a começar a operar no Brasil, segundo duas fontes com as quais o NeoFeed conversou.

Trata-se da Temu, um aplicativo de e-commerce que vende de roupas a utensílios domésticos a preços ultrabaixos e que foi lançado em setembro do ano passado pelo grupo chinês Pinduoduo (PDD Holdings). A empresa tem capital aberto na Nasdaq, vale mais de US$ 100 bilhões e conta com aproximadamente 900 milhões de usuários na China.

Em pouco tempo, a Temu se tornou o aplicativo de e-commerce mais baixado dos Estados Unidos, à frente da Shein. Em maio, de acordo com a Bloomberg Second Measure, que analisa bilhões de transações com cartões de crédito e débito, a plataforma vendeu 20% mais do que a Shein no mercado americano.

No Brasil, a Temu está seguindo um roteiro que é o playbook das companhias chinesas que têm planos de operar no País. No começo do ano, uma delegação de chineses veio visitar o Brasil.

Na sequência, um grupo de chineses se mudou para o País para começar a estruturar a operação. Até o fim do ano, a Temu deve começar a vender no Brasil, em uma operação cross-border clássica de muitas empresas chinesas.

Uma forma de atuar para ganhar projeção rápida é se associar com influenciadores digitais para que possam divulgar a marca e vender produtos diretamente, ganhando comissão pelas negócios gerados.

Isso tem sido feito nos Estados Unidos, Canadá e México, países das Américas onde a Temu ganhou projeção nos últimos meses. De acordo com o que apurou o NeoFeed, essa estratégia será replicada no mercado brasileiro.

O “recrutamento” de influenciadores é uma forma de atrair atenção ao aplicativo, que é o principal canal de vendas da Temu. Por isso, é importante estar à frente da Shein nas lojas de apps.

Não é só nos Estados Unidos que a Temu tem provocado calafrios na Shein. A consultoria americana Marketplace Pulse fez um levantamento mundial sobre downloads de aplicativos de e-commerce ao redor do mundo.

E os dados impressionam. A Shein e a Temu são os aplicativos mais baixados em 25 das 50 maiores economias do mundo. A Temu já está à frente da Shein em 12 desses mercados. Além dos EUA, o app da Temu lidera na Alemanha, no Reino Unido, na França, na Itália, no Canadá, na Austrália, na Espanha, na Holanda, na Suíça, na Áustria e na Nova Zelândia.

“Downloads não são receita, mas downloads indicam ambição”, escreveu Juozas Kaziukėnas, fundador do Marketplace Pulse, ao comentar esses dados.

Marketplace à la Amazon

Ao contrário da Shein, que tem sua própria marca e usa uma rede de fornecedores para produzi-las, a Temu é um marketplace ao estilo da Amazon. Seu modelo inclui comercializar direto da fábrica a preços muito baixos. Essa estratégia será usada no Brasil, importando diretamente mercadorias da China.

Outra diferença da Shein é que a Temu não é focada exclusivamente em roupas. A lista de categorias nas quais atua é bastante vasta, o que a faz ser mais parecida, em seu modelo de negócio, com Amazon e Shopee. A Temu vende roupas, produtos de beleza, calçados, joias, eletrônicos, produtos de jardinagens e para a casa, celulares… É uma infinidade de produtos.

No Brasil, a Shein anunciou um plano de investimento de R$ 750 milhões para criar uma rede de milhares de fabricantes no setor têxtil. A companhia também prometeu aumentar seu marketplace, incluindo fornecedores locais.

Uma parceria com a Coteminas, empresa comandada por Josué Gomes da Silva, que é também presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), vai ajudar a Shein a atrair fabricantes do setor têxtil.

Polêmicas da Temu

Mas assim como a Shein, a Temu já coleciona polêmicas. Em especial nos Estados Unidos, onde a tensão Washington e Pequim traz pressão para os negócios chineses.

Mas quem está reclamando das práticas comerciais é a própria Shein, que foi a Justiça contra a Temu, acusando-a de contratar influenciadores para fazer “declarações falsas e enganosas” contra a Shein em suas promoções. A Temu pediu ao tribunal que rejeite o processo, aberto em dezembro do ano passado.

A Pinduoduo, dona da Temu, também se envolveu com um entrevero com o Google, que tirou o aplicativo da loja de apps, sob a acusação de que ele baixava um “malware” – a empresa nega o incidente.

A Temu foi fundada, em 2015 por Colin Huang, um empresário cuja fortuna é avaliada em quase US$ 30 bilhões pela Bloomberg. Sua sede é em Xangai. Mas a companhia abriu o capital na Nasdaq em 2018, quando captou US$ 1,6 bilhão. A estratégia foi apostar em um modelo de compras coletivas – já testado aqui no Brasil e que nunca avançou.

No primeiro trimestre deste ano, a receita da Pinduoduo atingiu US$ 5,48 bilhões, uma expansão de 58% por conta da recuperação do e-commerce na China. O lucro passou de US$ 410 milhões para US$ 1,17 bilhão.

A Temu, de acordo com os dados, ainda tem uma baixa contribuição para a receita da Pinduoduo. “Para a Temu, nosso foco é sempre como entender melhor as necessidades do consumidor. As métricas financeiras serão um resultado natural de nossa criação de valor”, disse Jun Liu, vice-presidente de finanças da PDD Holdings, durante a teleconferência de resultados.

O fato é que, com pouco menos de um ano de vida, a Temu está se tornando o pior pesadelo da Shein no mundo. E pode virar mais uma dor de cabeça para as redes varejistas brasileiras.

‘https://neofeed.com.br/negocios/exclusivo-a-chinesa-temu-pesadelo-da-shein-vira-ao-brasil/’

Receita propõe antecipar cobrança em marketplaces

Programa foi desenhado sem novos impostos, mas com consumidor pagando tributo de 60% no ato da compra internacional.
O Ministério da Fazenda e a Receita Federal devem apresentar mudanças no atual sistema de remessas internacionais, de produtos adquiridos por consumidores em sites e aplicativos estrangeiros, após debates e reuniões com o setor nas últimas semanas. Contatos entre o Fisco, varejistas e plataformas foram intensificados desde que o governo anunciou o fechamento do cerco às compras on-line que entram no país sem o devido pagamento de impostos.

A principal alteração será o pagamento antecipado, no ato da compra, dos impostos já determinados em lei. Não há criação de novos tributos. Ainda continua válida a cobrança de imposto de importação de 60% sobre qualquer compra (em remessa postal ou aérea), por pessoas físicas no valor de até US$ 3 mil – o aspecto não foi alvo de discussão. Permanecem isentos envios de produtos, como presentes, sem transação comercial, de até US$ 50.

O Valor teve acesso ao programa de conformidade, elaborado pela Receita Federal, e que pode ser adotado pelas companhias estrangeiras que atuam no país, como Shein, Shopee, AliExpress e Wish. Batizado de “Remessa Conforme”, o modelo ainda será melhor detalhado ao ministro Fernando Haddad após a volta da viagem ao Japão, para eventuais ajustes, mas na visão da Receita está finalizado.
Estrangeiras não serão obrigadas a aderir ao sistema, mas anuência acelera o desembaraço.
As empresas não serão obrigadas a aderir ao “Remessa Conforme”, mas para aquelas que adotarem as regras, a liberação dos produtos será mais rápida, por meio de um “canal verde”. Aquelas que ficarem fora do programa cairão num sistema mais lento de desbloqueio, o “canal vermelho”.
Varejistas locais vêm criticando a decisão do governo de não obrigar as plataformas a aderir às mudanças. Na quinta-feira, espera-se que a Subsecretaria de Administração Aduaneira trate do novo programa em evento sobre o comércio eletrônico, em São Paulo.

O avanço no projeto ocorre semanas após os desentendimentos no governo sobre a forma de ampliar a fiscalização sobre as plataformas. Consumidores reagiram muito mal à ideia de Haddad e da direção da Receita de acabar com a isenção remessas de até US$ 50, e o presidente Lula, receoso do desgaste público, pôs fim à discussão.

Mas isso não impediu que a pressão de empresários brasileiros continuasse, sob a alegação de que há um “camelódromo digital” instalado no país, com sonegação de R$ 20 bilhões a R$ 40 bilhões ao ano. Cerca de 70% a 80% dos produtos importados de plataformas ao Brasil vem da China, e no mundo essa taxa é de 30%.
Pelas mudanças debatidas, o consumidor terá que pagar os impostos relacionados à importação de mercadorias no ato da compra na plataforma, por meio de um documento de arrecadação. Não se trata de criação de uma nova taxa, mas de antecipação no momento da cobrança para limitar a ação de compradores e vendedores que tentam burlar a fiscalização aduaneira manipulando informações das remessas.

Hoje o pagamento pelo consumidor ocorre só após a entrada das remessas internacionais no país, no site dos Correios (em boleto ou cartão de crédito), mas o problema central é que nem sempre a fiscalização dos Correios identifica a necessidade de pagamento do imposto. E Correios e Receita ainda cruzam poucas informações sobre os envios por CPF.

Segundo dados de 2022, apenas 1,9% das 176,3 milhões de remessas internacionais que entraram no país pelos Correios tinham a declaração de remessa ao Fisco para o pagamento dos impostos. Portanto quase 98% passou pelas fronteiras sem declaração, podendo incluir sonegação e entrada de produtos falsificados. Entre operadores privados (Fedex, UBS) compras com declaração atingiram mais de 70% em 2022, isso porque esses transportadores arcam com o pagamento dessa remessa e cobram diretamente do comprador.

Pela lei em vigor, de 1999, a tarifa atual, e que continuará válida, é de 60% sobre valor da compra, frete e seguro na soma de até US$ 3 mil, de empresas para pessoas físicas. Ainda é preciso arcar com o ICMS do Estado cobrando em remessas acima de US$ 500 e com a taxa aduaneira de R$ 150.

“Quem quer fugir do pagamento, usa os Correios, mas com a mudança, fica muito difícil dar um nó no sistema. Ao determinar o pagamento no ato da transação comercial, entre vendedor e comprador, não tem mais como dizer que é uma operação entre pessoas físicas e, logo isenta de imposto”, diz um diretor de uma varejista brasileira.
Segundo a legislação, a isenção cabe apenas se a pessoa física recebe algo de até U$ 50 de outra pessoa física, sem qualquer transação comercial envolvida.

O que ocorre, até hoje, é que há lojistas nos marketplaces que adulteram dados enviados aos Correios, muitas vezes com conhecimento do comprador, relatando serem pessoas físicas e declaram valores abaixo US$ 50. Com a proposta da emissão prévia da nota fiscal e do guia de pagamento, fica mais difícil fraudar a transação.

Pelo já discutido, os marketplaces estrangeiros terão que informar na página da oferta do produto o valor de cada imposto e da taxa postal. Eles que irão fazer os cálculos para o consumidor, identificando cada montante. A Amazon no Brasil já opera dessa forma.

Depois disso, ele recebe do comprador os pagamentos e faz o “split” da transação, ou seja, a separação: a parte do imposto será repassada ao transportador (Correios), que por sua vez repassa o valor à Receita. O site fica com a comissão sobre a venda, e o lojista, com o dinheiro da mercadoria. Já no país, o produto percorre alguns caminhos até ser entregue, a depender da adesão da plataforma ao sistema (veja no quadro acima). Haverá um selo do programa “Remessa Conforme” para os marketplaces que aderirem ao modelo.
Nas últimas duas semanas, a subsecretaria aduaneira da Receita teve reuniões com plataformas asiáticas e com varejistas nacionais para apresentar as ideias e houve entendimento, de ambos os lados, de que o modelo é um avanço. Há divergências, no entanto, sobre a necessidade de fiscalização sobre quem aderir ao selo.
“O problema é que o Haddad não quer obrigar ninguém a nada. Eles entendem que há uma pressão política contra qualquer mudança que torna difícil tornar algo obrigatório agora”, diz uma fonte.

Outro ponto central é que a responsabilização das companhias esbarraria no aspecto da personalidade jurídica no Brasil. “Algumas nem são empresas brasileiras. E não acho que caberia um ‘enforcement’ mais duro agora”, afirma outra pessoa a par das discussões.
A Receita ainda se encontrará com Haddad para alinhar o tema, apurou o Valor, mas caso o texto atual tenha aval do ministro, o formato deve ser anunciado entre esta semana e o começo de junho.
Na semana passada, alguns executivos do comércio on-line ouvidos levantaram hipótese de uma implementação do programa em etapas, e possível adiamento do pagamento antecipado, mas com a manutenção da troca de dados de forma integrada, entre Correios e Receita, outra ação prevista. “Há um receio no setor, mas não nos parece que há a disposição de adiar da Receita. Nas conversas, eles dizem que estão prontos. E os Correios falam que estão se adaptando”, afirma um empresário.

Varejistas querem que isso saia do papel rápido, e plataformas estrangeiras, por sua vez, alegam que há uma pressão setorial forte porque as redes locais querem defender seus mercados da concorrência dos marketplaces asiáticos “mais eficientes, e com mais caixa para investir”, como resumiu ontem um gerente-geral de uma plataforma. “Entendemos que o jogo tem que ser igual, mas entendemos também que, mesmo com 60% de imposto, ainda seremos competitivos com estratégias que ainda vamos lançar”, diz.

O programa pode ser um adendo ou um aditivo da instrução normativa da Receita Federal 2124, publicada no Diário Oficial em dezembro, diz uma pessoa a dar dos trâmites. Uma segunda hipótese é essa normativa ser reeditada com os termos do novo programa. De qualquer forma, o fato é que o “Remessa Conforme” surge ancorado na normativa, o que aumenta seu peso, já que a normativa tem data.
Essa instrução determina que os Correios terão que encaminhar à Receita, dois dias antes da chegada de toda remessa postal, um formulário com 37 dados do comprador (como CPF, valor da compra e descrição completa do conteúdo).

As plataformas asiáticas terão que passar os dados aos Correios e aos transportadores privados, que os enviarão à Receita. A mudança vai permitir à Receita identificar os CPFs que movimentam volumes elevados de compras.
Isso já começaria a funcionar daqui a pouco mais de um mês – e o “Remessa Conforme” viria já nesse ambiente de mudanças.

Procurada para comentar o novo programa, a Receita informa que, quando as regras estiverem validadas internamente, fará a devida divulgação. O Ministério da Fazenda não se manifestou, assim como os Correios.
Nesta semana, há uma agenda em andamento sobre o tema. Está marcada para hoje uma audiência pública, solicitada pelo deputado federal Julio Lopes (PP-RJ) para debater a incidência de impostos no on-line e digitalização. Devem estar presentes representantes da Procomex (Aliança Pró Modernização Logística de Comércio Exterior), o IDV, principal instituto do varejo, e representante do Ministério da Fazenda. Procomex e IDV estiveram nesse debate do novo programa nas últimas semanas.

Além disso, amanhã e quinta-feira, a Procomex realiza, em hotel em São Paulo, seminário sobre segurança e cadeia logística, com presença da chefia da subsecretaria de administração aduaneira, que coordena o “Remessa Conforme”, e outras empresas envolvidas no programa, como a Sinerlog.

Ainda não estão claras, por parte das plataformas, as medidas para adequação do sistema de pagamento e envio de dados.

Procurada, a Shein diz que tem acompanhado de perto a discussão e acredita que o potencial de um país e setor é potencializado por meio de “soluções equânimes de justiça tributária”. Afirma que “vê com bons olhos”, mas entende que é “muito importante o diálogo setorial e com o governo” para uma solução “de fato, eficaz e que busque apoiar o consumidor”.

Na semana passada, o comando da Shein disse que a empresa pagaria eventuais impostos cobrados do consumidor – sem detalhar forma e percentual. As empresas podem arcar com o pagamento se desejarem (por meio de descontos, vouchers), mas há uma busca no setor no mundo por ações de defesa de rentabilidade e revisão de subsídios.
O AliExpress diz que se manterá disponível e colaborativo com o governo “a favor de quem mais importa, o consumidor”. Diz que assim que o documento for recebido, será estudado e analisado para que possa ser implementado. A Shopee não comentou o tema.

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Marcas aderem ao Dia Livre de Impostos com descontos e promoções

A edição anterior contou com a participação de 26 estados e o Distrito Federal e movimentou R$ 3 bilhões na economia.

Dia Livre de Impostos
Diversas marcas vão participar do Dia Livre de Impostos com promoções e descontos. A ação tem o objetivo de chamar a atenção para a alta carga tributária paga por todos os brasileiros diariamente. No ano passado, o brasileiro teve que trabalhar 149 dias somente para pagar impostos.

A edição anterior contou com a participação de 26 Estados e do Distrito Federal e movimentou R$ 3 bilhões na economia, segundo dados da Câmara de Dirigentes Lojistas Jovem (CDL Jovem).

As lojas da Havan vão aderir à campanha, com uma promoção exclusiva aos clientes nesta quinta-feira, 25. Os produtos estarão com até 50% de desconto, com a empresa arcando com os custos de todos os impostos do item selecionado.

“Nas edições anteriores, apenas os Postos Havan, localizados em Santa Catarina, participaram. Neste ano, a promoção será realizada somente nas lojas, o que possibilita a participação das 174 megalojas da rede”, explica o dono da Havan, Luciano Hang.

Os lojistas do Ilha Plaza Shopping, no Rio de Janeiro, estarão mobilizados para a campanha. O shopping oferece descontos a partir de 10% em diversos produtos em lojas participantes. Na iniciativa deste ano, marcas como Toulon, Valisere, Peahi, Euro colchões e D&C kids também participarão.

Durante a campanha, as lojas participantes estarão identificadas com uma etiqueta que indica o desconto oferecido, que varia de acordo com o produto e a loja. Os clientes também poderão conferir a lista de lojas participantes no site oficial do shopping ou nas redes sociais do estabelecimento.

Descontos em todos os canais
A Wine, clube de assinatura de vinhos, também participa da campanha. Os mais de 500 rótulos do portfólio da marca estarão com até 80% de desconto até o final do mês.

“Os descontos chegam a 80% e se aplicam às compras realizadas em todos os nossos canais, como aplicativo, e-commerce, lojas físicas e venda B2B, com a Cantu Importadora, para restaurantes, supermercados, adegas e demais estabelecimentos. Realizamos a campanha Imposto Zero há cinco anos consecutivos, como forma de respeito aos nossos sócios e clientes, mostrando o impacto das altas cargas tributárias no vinho”, diz Alexandre Magno, diretor de Oimpostoperações da Wine no Brasil.

Para tentar entender o volátil comportamento recente do varejo

O setor de varejo no Brasil nos seus diferentes canais, categorias, formatos de lojas e modelos de negócio tem apresentado resultados que ora surpreendem positivamente, ora mostram estagnação ou mesmo queda, o que tem criado dificuldade por contrarirar as expectativas que foram geradas.

O conturbado período eleitoral, conjugado com os problemas gerados pelas Americanas e outras redes, mais o período turbulento de transição, dificuldades de articulação e falta de um projeto consistente, além dos percalços nas negociações com o Congresso e coordenação da própria equipe, têm criado um clima menos positivo para o consumo e o varejo.

Tudo isso foi potencializado pelas elevadas taxas de juros – sem entrar no mérito da discussão de sua necessidade –, alta inadimplência dos consumidores, nível de desemprego acima do desejável e pela inflação em queda, porém ainda elevada. Esses fatores geram forte impacto na intenção e na decisão de consumo.

Para completar o complexo cenário, temos um quadro estrutural de baixa recuperação da massa salarial, resultado da combinação de pequeno crescimento da renda real e do desemprego que se mantém elevado,agravado pelos auxílios que estão criando um desestímulo ao emprego formal.

A combinação de tudo isso afeta a confiança dos consumidores, que é elemento fundamental do interesse pelo consumo.

Tudo indica que esse quadro, nos planos macro e micro, deve permanecer assim nos próximos meses e gera cautela, contenção de investimentos e volatilidade no comportamento da economia pela ótica do consumo.

Os números, pelas mais diversas fontes, estão aí para mostrar esse nível de volatilidade.

O que foi divulgado pelo IBGE, dado oficial do comportamento do setor para o todo do varejo, relativs a março, mostra variação real positiva no ano de 2,4% e de 1,2% nos últimos 12 meses. Destaca-se o setor de super e hipermercados, com variação real positiva 3,2% no ano e a variação real negativa de 3,3% no setor de material de construção.

Outros setores afetados são o de tecidos, vestuário e calçados, com -4,7% no ano, e de -6,2% no setor de móveis e de -0,5% em artigos farmacêuticos e perfumaria.

Pelos números compilados pela Abras, com base na amostra de seus associados, o resultado é inferior aos dados oficiais do IBGE, com destaque para as variações negativas de fevereiro e março de 0,39 e 0,62, respectivamente, sobre os meses anteriores.

No formato de atacarejo, as vendas mesmas lojas têm frustrado expectativas pela ampliação do número de operações, mas no todo têm aumentado a participação dessa modalidade pelo apelo gerado pelos formatos orientados para valor considerando o cenário de incertezas.

Quando se considera o setor de foodservice, os números apurados pelo IFB (Instituto Foodservice Brasil) são mais cautelosos por conta da forte base de comparação que marcou o início do ano passado.

Os números atuais também são mais afetados pela inflação da alimentação preparada fora do lar, que, nos primeiros quatro meses, variou entre 7,82 e 8,04%, depois de ter permanecido a maior parte do ano passado bem abaixo da alimentação no lar, que variou ao longo do período de fevereiro a dezembro de 2022 de 10,14 a 17,5%.

Os dados apurados pela Cielo para o setor de foodservice, comparados com o mesmo mês do ano anterior, mostram para o período, no total, variação positiva de 16,4% em janeiro, 7,0% em fevereiro, 5,4% em março e 0,2% em abril, lembrando que são números impactados pela base de comparação no início do ano passado.

Enquanto o País discute como vai tratar as questões tributárias, o saneamento, as concessões, a suspensão de contratos e a politização de questões jurídicas, o consumo e o varejo, os maiores gerados de emprego do setor privado nacional, têm comportamento volátil, com tendência de piora, inibindo investimentos e postergando decisões estruturais pelo quadro de incertezas que se tornou o ambiente natural do momento.

É inegável que o período tem sido marcado por inegáveis dificuldades inerentes em parte pela pequena diferença na definição das eleições presidenciais, mas principalmente pela dificuldade de articulação, organização e a integração dos diversos setores e segmentos do País, que parece até mais dividido e atônito do que esteve no período eleitoral.

E os caminhos para uma retomada são razoavelmente básicos. Basta perguntar ao ChatGPT como viabilizar um maior crescimento do varejo e do consumo no Brasil neste momento e ele indicará cinco medidas para tal.

Estímulo à geração de emprego e à renda da população;
Redução da carga tributária para empresas e consumidores;
Investimentos em infraestrutura e logística para melhorar a distribuição de produtos;
Incentivo ao comércio eletrônico e a novas tecnologias de pagamentos;
Promoção de políticas de crédito acessível e de longo prazo para pequenos e médios empresários
Nada menciona sobre aumentar o tamanho do Estado ou considerar que é preciso desestimular a concessão ou privatização de negócios em que o setor público já se mostrou incompetente para administrar bem como concentrar tempo e atenção em revolver os problemas do passado sem pensar nas soluções para o futuro.

A volatilidade no comportamento no varejo, em seus diversos segmentos, setores, canais e negócios, além do próprio consumo, é apenas o reflexo indesejável dessa situação que só será equacionada quando for priorizada a pacificação e integração da nação para a construção de uma outra realidade.

Vale refletir.

Vendas no varejo do Brasil superam expectativas em março e fecham 1° tri com ganhos

As vendas no varejo brasileiro subiram muito mais do que o esperado em março sobre o mês anterior, registrando forte aumento frente ao mesmo período de 2022 e fechando o primeiro trimestre deste ano com ganhos sólidos, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira (17).

Em março, as vendas no varejo tiveram alta de 0,8% em comparação com fevereiro, resultado bem melhor do que a expectativa em pesquisa da Reuters de retração de 0,8% e marcando o primeiro avanço para o mês desde 2018 (+1,3%).

Em relação a março do ano passado, o volume de vendas saltou 3,2%, superando com força a projeção de baixa de 0,10%..

Esse desempenho ajudou o setor varejista a registrar avanço de 2,0% no volume de vendas no primeiro trimestre de 2023 na comparação com os três meses imediatamente anteriores, marcando o melhor desempenho nessa base de comparação desde o período de abril a junho de 2021 (+2,4%).

Agora, o setor varejista está 4,3% acima do patamar pré-pandemia, de fevereiro de 2020, embora siga 2% abaixo do recorde da série, registrado em outubro de 2020.

“Há um fenômeno de reação e recuperação do varejo no primeiro trimestre deste ano, após dois trimestres seguidos de queda e com dois meses de alta dentro do período”, disse o gerente da pesquisa, Cristiano Santos.

“A inflação menor e o dólar mais baixo talvez sejam os fatores macro que mais contribuem para o varejo no trimestre… embora o crédito da pessoa física tenha andado de lado, assim como a massa de rendimento real e os (trabalhadores) ocupados em queda”, completou ele.

Os dados foram divulgados um dia depois da publicação do indicador ICVA, de vendas no varejo e calculado pela empresa de meios de pagamento Cielo, que mostrou queda de 2,8% nas vendas deflacionadas de abril sobre um ano antes.

Segundo o IBGE, o resultado de março foi influenciado pela alta de três das oito atividades do comércio varejista pesquisadas. O volume de vendas de Equipamentos e material para escritório, informática e comunicação subiu 7,7%, enquanto o de Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria avançou 0,7% e o de Móveis e eletrodomésticos ganhou 0,3%.

Segundo Santos, a maior contribuição veio dos artigos farmacêuticos, que têm o segundo maior peso no indicador geral.

A atividade de Hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo – principal influência sobre o volume total de vendas – ficou estável, abandonando perdas anteriores, o que Santos atribuiu a “menor pressão inflacionária, que ajuda na receita do setor e no poder de compra das pessoas”.

O comércio varejista ampliado, que inclui veículos, motos, partes e peças e material de construção, teve alta de 3,6% das vendas em março.

Depois de encerrar 2022 com fraqueza, o setor varejista brasileiro deu um salto no início do ano, favorecido por onda de promoções e liquidações, mas tem à frente agora as consequências dos juros altos no país, que encarecem o crédito. A taxa Selic está atualmente em 13,75%, nível elevado que tem sido criticado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A alta do setor varejista em março foi acompanhada de expansão de 1,1% da produção industrial e de 0,9% do setor de serviços, segundo relatórios divulgados pelo IBGE mais cedo neste mês.

Consumo apático se espalha e afeta até varejo resiliente

Juros elevados, inadimplência e fraco volume afetam operações; redes ainda enfrentam questões pontuais de seus próprios negócios.

A apatia que predomina no ambiente de consumo tem afetado não apenas as empresas menos resilientes à períodos de crise de demanda, mas também companhias de “primeira prateleira”, historicamente mais protegidas das crises econômicas.

Juros elevados, que levam a uma desaceleração do ritmo de consumo por um período mais longo que o previsto pelas empresas, e questões pontuais de cada negócio têm contaminado o humor do mercado – e, por tabela, o desempenho no ano de ações de redes líderes como Renner, Assaí e Carrefour (Atacadão). Soma-se a isso o impacto da escassez de crédito, após o escândalo contábil na Americanas, e a taxa de inadimplência das famílias ainda resistente.

Como resumiu ontem o sócio de uma gestora, “o investidor não tem dado mais o benefício da dúvida a quase nenhuma empresa de consumo pelo que se prevê para este semestre, que já está meio perdido para o varejo”, diz.

Como se não bastasse o baque que as redes têm sentido com a escalada nos juros desde o ano passado, que eleva as despesas financeiras, os números dos balanços do primeiro trimestre mostram taxas de crescimento da receita nominal em desaceleração frente a 2022, e retomada de pressões em gastos fixos. As vendas têm subido mais forte em casos de comparações mais fracas com 2022 e no varejo para classe de alta renda.
Ontem (04.05), o site do Valor noticiou a onda de cadeias de capital aberto vendendo ativos, como lojas, depósitos e até a sede (caso do GPA) como forma de reduzir alavancagem, e num cenário de incerteza sobre a retomada.

“Há uma questão neste ano, e que não víamos antes, que é essa ‘gordura’ que o comércio tinha, com a taxa de expansão na receita bem acima do crescimento do volume. Isso vinha ajudando parte do varejo até ano passado”, disse diz Fabio Bentes, economista senior da CNC, a confederação do comércio.

“Essa ‘gordura’ refletia a capacidade de as empresas fazerem os seus repasses de preços ao cliente, algo que diminuiu neste ano com a deterioração contínua no ambiente macro. Há uma inércia no consumo que se arrasta há muito tempo e isso vai contaminando mesmo setores mais protegidos, como alimentos” disse.

Dados da CNC que cruzam receita e volume, utilizando os números da pesquisa de comércio do IBGE, mostram que a receita nominal chegou a subir pouco mais de 15% em março do ano passado – no primeiro bimestre, crescia 14,3%, para um volume que subia 1,5%. Já neste ano, essa receita avançou menos, 13,8%, na média do primeiro bimestre, para um volume que também perdeu o fôlego, e subiu 1,3%. O “gap” entre as taxas nos períodos, ou seja, a “gordura”, como diz a CNC, encolheu.

Esse movimento de repasses aos preços em moda e varejo eletrônco cresceu em 2022 como forma de proteger margem. Bentes reforça que mesmo com o recente desaquecimento da inflação, não há efeito imediato em consumo. Isso porque a renda continua comprometida em patamar elevado – com base em dados do Banco Central, esse nível atingiu recorde de 18 anos da pesquisa neste ano. E certos segmentos, como alimentos, não crescem de forma acelerada quando há melhora em renda. “Ninguém passa a comer mais porque a inflação cai, a renda vai a outras áreas, como serviços.”

O comando do Carrefour citou, nesta semana, a desaceleração da inflação de preços ao consumidor, que afeta a receita nominal em vendas “mesmas lojas” (com mais de um ano), e a competição mais acirrada no atacarejo. Esse segmento vem crescendo de forma mais forte, mas tem sentido, além da “desinflação”, a canibalização maior após aberturas em ritmo acelerado, disse na quarta-feira o CEO do Carrefour, Stéphane Maquaire.

O grupo teve alta de 5,7% nas vendas “mesmas lojas” até março, abaixo do previsto por analistas.
No balanço do primeiro trimestre, o rival Assaí menciona resultados das ações tomadas para o aumento das vendas, mas cita impacto do ambiente macro e da base de comparação forte. Desde janeiro, as ações de Carrefour e Assaí caíram 36,5% e 39,5%, respectivamente, e o Ibovespa recuou quase 4%.

Questões específicas ligadas à cada negócio também tem afetado esses papéis na B3. “No atacarejo, há uma questão de mercado muito ofertado em número de lojas, além da canibalização dos pontos”, disse Alberto Serrentino, fundador da Varese Retail.

Analistas ainda citam desafios de integração de negócios, no caso do Atacadão (comprou a rede Big) e do Assaí (comprou lojas do Extra), que acontecem exatamente nesse período mais difícil, e que elevam despesas operacionais, junto com a alta nas despesas financeiras pelos juros.

Outra varejista, também líder em seu mercado, a Renner sentiu, no primeiro trimestre, uma reação negativa à estratégia da empresa de lançar coleção inverno com preço “cheio”, e reviu seus posicionamento após março, disse ontem o comando do grupo. O mercado já aguardava uma desaceleração após a rede já ter sinalizado a investidores dificuldades no período. Isso afetou a ação nas últimas semanas – no ano, a ON da Renner cai 20%, também acima do recuo do Ibovespa de 4%.

A varejista disse que entrou o primeiro trimestre muito estocada e precisou reduzir esse volume e, ao mesmo tempo, decidiu cancelar a coleção de transição, normalmente criada entre as quatro estações. E ainda preferiu antecipar a coleção inverno de 2023. Essa estratégia já havia sido usada em 2022, mas neste ano não funcionou. A venda de janeiro a março subiu 2,2% (se descontar a Camicado cresceu 3,5%).

Foi feito um repasse de preços que “feriu o consumidor” e a venda desacelerou após março, disse ontem o CEO da Renner, Fabio Faccio, em teleconferência, reforçando que desde abril, há sinais mais positivos dos ajustes feitos.

“O momento está um pouco difícil, o ambiente não nos ajuda muito, e o tempo [clima] e o ambiente ‘macro’ são incontroláveis, mas a empresa tem que ajudar. Podemos não ter feito bem, mas a equipe está unida trabalhando”, disse o presidente do conselho de administração da rede, José Galló, durante evento anual com investidores ontem.

Ainda nesta semana, após a divulgação pela Arezzo de seus números de janeiro a março – mesmo com vendas acima do esperado pelo mercado – mesmo com vendas acima do esperado pelo mercado – as ações da empresa caíram 5,7% no pregão. Número mais fraco em margem bruta, dizem gestores ouvidos, ajudou a afetar o humor dos investidores. A ação da varejista cai 19,7% no ano.

Levantamento feito pelo Valor Data, sobre balanços das empresas no fim de 2022 já indicava esse cenário mais complexo. A receita líquida das varejistas e indústrias de consumo do país, presentes na base no Ibovespa (são 12 companhias), subiu 22,6% de outubro a dezembro, e as despesas operacionais cresceram 25,4%. Já o valor do ebit, indicador que mede o lucro operacional (antes dos efeitos de despesas financeiras) subia apenas 3%. A margem bruta no período encolheu 0,4 ponto, para 25,8%, a e a margem ebit diminuiu 0,9 pontos, para 4,5%.